
O Livro que Escrevia o Futuro
· 8 min de leitura
Daniel estava prestes a fechar a biblioteca quando encontrou um livro preto em cima do balcão. Não se lembrava de o ter visto antes. Também não tinha título, nome de autor ou qualquer etiqueta que…
Parte 1 — Caso aberto
Daniel estava prestes a fechar a biblioteca quando encontrou um livro preto em cima do balcão.
Não se lembrava de o ter visto antes. Também não tinha título, nome de autor ou qualquer etiqueta que permitisse identificá-lo. Era um volume antigo, de capa escura, com um símbolo estranho gravado no centro.
Abriu-o por curiosidade.
As primeiras páginas estavam em branco. Na sétima, porém, encontrou uma frase escrita a tinta preta:
«Amanhã, às 18h42, um homem vestido de cinzento entrará nesta biblioteca e perguntará por um livro que nunca existiu.»
Daniel soltou uma pequena gargalhada.
Alguém devia estar a pregar-lhe uma partida. Fechou o livro, guardou-o numa gaveta e foi para casa.
No dia seguinte, às 18h41, a porta da biblioteca abriu-se.
Entrou um homem alto, vestido com um sobretudo cinzento. Tinha o cabelo completamente branco e uma expressão estranha, como se estivesse à espera daquele momento há muito tempo.
Aproximou-se do balcão.
— Boa tarde. Estou à procura de um livro.
Daniel levantou os olhos.
— Sabe o título?
— Não tem título. Nunca teve.
O relógio da parede marcou as 18h42.
Daniel sentiu um arrepio.
— Quem lhe falou desse livro?
O desconhecido não respondeu. Olhou para a gaveta onde Daniel tinha guardado o volume preto.
— Portanto, já o encontrou.
Daniel ficou imóvel.
— Como sabe que está aqui?
O homem inclinou-se ligeiramente na sua direção.
— Porque fui o último a lê-lo.
— O que tem de especial?
— Escreve coisas que ainda não aconteceram. E, quando alguém chega à última página, deixa de ser dono do seu próprio destino.
Daniel tentou rir-se, mas não conseguiu.
— Isso é absurdo.
— Quem me dera que fosse.
O homem virou-se para a porta. Antes de sair, parou e acrescentou:
— Não leia o que está escrito depois do seu nome. E, acima de tudo, não deixe que o livro chegue ao fim.
— Espere! Quem é o senhor?
O desconhecido olhou para ele uma última vez.
— Alguém que cometeu o erro de acreditar que podia mudar o que estava escrito.
Depois, saiu para a rua.
Daniel correu atrás dele alguns segundos mais tarde, mas não encontrou ninguém. A rua estava deserta e a chuva caía sobre os passeios.
Quando regressou ao balcão, o livro estava aberto.
Tinha surgido um novo parágrafo.
«Daniel procurará a verdade sobre a mãe. Encontrará uma fotografia escondida atrás da terceira estante da sala antiga. Nela descobrirá que a mãe não morreu no dia que lhe disseram.»
Daniel sentiu o coração bater violentamente.
A mãe tinha morrido quando ele tinha doze anos. Segundo o pai, sofrera um acidente de viação. Nunca tinha visto o corpo e, embora em criança tivesse feito perguntas, acabara por aceitar a explicação que lhe deram.
Mas o que tinha ela a ver com aquele livro?
Sem pensar muito, dirigiu-se à sala antiga. Atrás da terceira estante encontrou uma pequena caixa de madeira coberta de pó.
Lá dentro estava uma fotografia da mãe, muito mais jovem, em frente à mesma biblioteca.
Ao lado dela apareciam dois homens.
Um era o desconhecido do sobretudo cinzento.
O outro era o pai de Daniel.
Daniel virou a fotografia. No verso, escrito com a letra da mãe, havia uma frase:
«Se algum dia encontrares o livro, não confies no homem de cinzento. Ele não quer destruí-lo. Quer terminá-lo.»
Por baixo da fotografia havia uma pequena chave e um bilhete.
«A última página está debaixo do chão da sala de leitura. Perdoa-me, filho. Nem tudo aquilo de que te lembras é verdade.»
Daniel regressou ao balcão com as mãos a tremer.
O livro tinha passado para uma nova página.
«Amanhã, Daniel descobrirá quem escreveu este livro. Mas, antes disso, terá de conhecer a verdade sobre a sua própria morte.»
Daniel leu a frase várias vezes.
Depois, olhou para a fotografia da mãe.
Pela primeira vez, perguntou a si próprio se o acidente teria realmente acontecido.
E percebeu que o livro não se limitava a prever o que estava prestes a acontecer.
Parecia conhecer segredos que ninguém deveria conhecer.
Até aqueles que a sua própria família tinha enterrado.
Parte 2 — Resolução
Daniel esperou até a biblioteca ficar vazia.
Com a chave encontrada na fotografia, abriu um compartimento escondido debaixo do chão da sala de leitura. Lá dentro encontrou um diário antigo, várias cartas e outra fotografia.
Nela aparecia ele próprio em criança, sentado em frente ao livro preto. A mãe estava atrás dele, com uma mão pousada no seu ombro. O homem do sobretudo cinzento observava a cena junto à porta.
Daniel abriu o diário.
A primeira página tinha uma data de dezassete anos antes e uma frase escrita com a letra da mãe:
«Hoje compreendi que o livro não prevê o futuro. Recorda-o.»
Continuou a ler.
A mãe tinha trabalhado naquela biblioteca muitos anos antes dele. Um dia, encontrara o volume preto entre os documentos do antigo diretor. No início, julgara tratar-se de um manuscrito inacabado. Depois descobrira que as suas páginas descreviam acontecimentos antes de estes sucederem.
Mas havia algo mais.
Cada pessoa que lia o livro até ao fim ficava presa à história que ele escrevia. As suas decisões, os seus erros e até a sua morte passavam a fazer parte das páginas.
O homem de cinzento tinha sido o último a ler o livro por completo. Desde então, não envelhecera.
A mãe de Daniel tentara destruir o livro, mas não conseguira. Por fim, compreendera que a única forma de o deter era escrever algo que o livro não tivesse previsto.
A última entrada do diário dizia:
«Fingi a minha morte para proteger o meu filho. O pai dele vai ajudar-me a desaparecer. Se um dia o livro chegar às mãos de Daniel, isso significará que não consegui mantê-lo afastado desta história.»
Daniel sentiu que o ar lhe faltava.
A mãe não tinha morrido naquele acidente.
Tinha desaparecido para o proteger.
No final do diário encontrou uma carta dirigida a si.
«Meu querido Daniel: se estás a ler isto, perdoa-me por todos os anos que perdemos. Não sei se algum dia voltaremos a ver-nos, mas quero que te lembres de uma coisa: o livro só consegue controlar aqueles que acreditam que as suas palavras são inevitáveis. Não lhe entregues a tua vontade. Escreve algo que ele não possa conhecer.»
Um ruído fê-lo virar-se.
O homem do sobretudo cinzento estava à porta.
— Avisei-te para não chegares até aqui — disse ele.
Daniel levantou-se.
— Onde está a minha mãe?
O homem baixou os olhos.
— Não sei.
— Estava com ela nas fotografias. Sabia o que se passava. Porque não a ajudou?
— Tentei. Mas a tua mãe percebeu algo que eu demorei demasiado tempo a aceitar.
— O quê?
O homem olhou para o balcão, onde o livro preto tinha reaparecido.
— Que o livro não precisa de controlar o futuro. Só precisa de convencer os seus leitores de que não o podem mudar.
As páginas começaram a virar-se sozinhas.
Pararam na última.
Uma frase apareceu lentamente diante dos olhos de Daniel:
«Daniel acabará de ler esta página. Compreenderá que a mãe está morta e que nunca mais a verá. Depois, ocupará o lugar do homem de cinzento e permanecerá na biblioteca até que outro leitor encontre o livro.»
Daniel sentiu a raiva queimar-lhe o peito.
O livro queria obrigá-lo a aceitar mais uma mentira.
Olhou para o desconhecido.
— E se eu não fizer o que está escrito?
— Não sei — respondeu o homem. — Ninguém se atreveu a tentar.
Daniel pegou numa caneta que estava sobre a secretária.
O homem deu um passo na sua direção.
— Se escreveres nessa página, não haverá volta atrás.
— E se não escrever nada?
— O livro terminará a história por ti.
Daniel observou as palavras sobre a mãe. Durante dezassete anos vivera convencido de que ela tinha morrido. Agora sabia que alguém tinha decidido por ele aquilo de que devia lembrar-se e aquilo em que devia acreditar.
Não ia permitir que um livro voltasse a fazê-lo.
Encostou a caneta à última página e escreveu:
«Amanhã, o livro deixará de escrever o futuro.»
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Depois, as letras começaram a desaparecer.
Uma a uma, as frases apagaram-se até todas as páginas ficarem em branco. O símbolo da capa rachou-se e o livro fechou-se com um estalo seco.
O homem do sobretudo cinzento caiu de joelhos.
O cabelo começou a escurecer-lhe e as rugas surgiram-lhe no rosto. Em poucos instantes, parecia ter envelhecido muitos anos.
— O que fizeste? — sussurrou.
Daniel pousou a caneta.
— Decidi o meu próprio final.
O homem levantou a cabeça e sorriu tristemente.
— Então, talvez ainda haja esperança.
E desapareceu.
Daniel procurou por toda a biblioteca, mas não encontrou qualquer vestígio dele.
Na manhã seguinte, guardou o livro numa caixa e fechou-o num armário da cave. Depois, regressou à sua secretária, exausto, convencido de que tudo tinha finalmente terminado.
Foi então que viu um envelope que alguém deixara sobre o balcão.
O seu nome estava escrito na parte da frente.
Lá dentro encontrou uma fotografia recente de uma mulher sentada num café. Tinha o cabelo grisalho, algumas rugas à volta dos olhos e uma pequena cicatriz no queixo.
Daniel reconheceu imediatamente aquela cicatriz.
A mãe fizera-a quando ele tinha seis anos, ao cair enquanto arranjava uma estante.
No verso da fotografia havia uma morada e cinco palavras:
«Perdoa-me por demorar tanto, filho.»
Daniel apertou a fotografia contra o peito.
Pela primeira vez em dezassete anos, chorou sem sentir que estava a despedir-se de alguém.
Nessa mesma tarde, apanhou um comboio para a morada indicada.
Não sabia o que iria encontrar, nem se a mãe conseguiria explicar-lhe todos aqueles anos perdidos. Mas estava disposto a descobrir por si próprio.
Acreditava que o mistério tinha terminado.
Até que, nessa noite, um rapaz encontrou um livro preto sobre a mesa do seu quarto.
Não tinha título nem nome de autor.
A primeira página estava em branco.
Na segunda havia uma frase escrita a tinta preta:
«Amanhã, conhecerás um homem chamado Daniel. Ele dir-te-á que os livros não podem escrever o futuro.»
O rapaz sorriu e virou a página.
Nalgum lugar da cidade, Daniel acabara de descobrir que o futuro lhe pertencia.
Mas talvez o livro nunca tivesse precisado de o escrever.
Talvez só precisasse de encontrar alguém disposto a acreditar nele.
- #cuento
- #daniel
- #livro
- #tinha
- #estava
Outros contos
Ver arquivo →
Cuento
O turno da morgue
Às duas e dezassete da madrugada, Clara Montes recebeu um cadáver com o nome de um homem que continuava vivo. O turno noturno da morgue municipal costumava decorrer sem surpresas. Um acidente de viação, uma…
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Cuento
A mensagem que chegou amanhã
Às nove e catorze da noite, Inés recebeu uma mensagem de áudio enviada pelo seu próprio telemóvel. A mensagem aparecia numa conversa consigo mesma, que costumava utilizar para guardar notas. A data de envio indicava…
22 de outubro de 2026 · 4 min de leitura