
O turno da morgue
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Às duas e dezassete da madrugada, Clara Montes recebeu um cadáver com o nome de um homem que continuava vivo. O turno noturno da morgue municipal costumava decorrer sem surpresas. Um acidente de viação, uma…
Parte 1 — Caso aberto
Às duas e dezassete da madrugada, Clara Montes recebeu um cadáver com o nome de um homem que continuava vivo.
O turno noturno da morgue municipal costumava decorrer sem surpresas. Um acidente de viação, uma pessoa por identificar, alguma morte natural à espera de transferência. Clara trabalhava ali há seis anos e aprendera a reconhecer os sons do edifício: os motores das câmaras frigoríficas, as rodas das macas, o bater metálico das portas e o zumbido constante das luzes.
Nessa noite, uma carrinha branca parou junto à entrada de serviço.
O condutor entregou-lhe uma pasta.
— Transferência urgente — disse.
Clara olhou para a folha.
Andrés Rivas. Sessenta e sete anos. Homem. Morte pendente de autópsia.
Conhecia o nome.
Andrés Rivas fora juiz de instrução durante mais de trinta anos. Reformara-se recentemente, mas continuava a aparecer nos jornais porque tinha reaberto vários casos antigos relacionados com desaparecimentos e corrupção policial.
— De onde vem? — perguntou Clara.
— De uma residência particular.
— Quem assinou o certificado?
O condutor apontou para a última página.
A assinatura pertencia à doutora Lucía Barea, diretora da morgue.
Clara levantou os olhos.
— A doutora Barea está lá dentro.
— Disseram-me para deixar o corpo e ir embora.
O homem descarregou a maca. O corpo estava coberto até ao pescoço. Não tinha pulseira hospitalar. Apenas uma etiqueta de plástico presa ao tornozelo.
Clara levou a maca até à câmara número quatro. Antes de introduzir o corpo, verificou a etiqueta.
O rosto não correspondia a nenhuma fotografia de Andrés Rivas que tivesse visto nos jornais.
Era um homem com cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho e uma cicatriz antiga no pulso esquerdo. No antebraço tinha uma tatuagem desbotada: um triângulo preto atravessado por uma linha.
Clara voltou a olhar para a etiqueta.
Andrés Rivas.
Abriu o sistema informático. O registo já estava criado.
A entrada aparecia registada às 1h58, dezassete minutos antes de a carrinha chegar.
O documento fora validado com o utilizador da doutora Barea.
Clara pegou no telefone da sala e procurou o número de Andrés Rivas numa base de dados pública. Ligou.
Atenderam ao quarto toque.
—Sim?
Clara reconheceu a voz pelas entrevistas na televisão.
—O senhor Andrés Rivas?
—Sim.
—Sou Clara Montes, da morgue municipal.
Houve um silêncio.
—Porque me está a ligar a morgue?
Clara olhou para o corpo coberto pelo lençol.
—Preciso de confirmar alguns dados de identificação.
—Estou em casa.
—Está sozinho?
—Não. A minha filha está comigo.
—Sente-se bem?
—O que está a acontecer?
Clara não respondeu imediatamente.
—Não saia de casa —disse.
—O quê?
—Feche todas as portas e telefone à polícia.
—Porquê?
Clara voltou a olhar para o cadáver.
—Porque há aqui um corpo registado com o seu nome.
Rivas não respondeu.
Depois perguntou:
—A doutora Barea está de serviço?
—Sim.
—Não lhe diga nada.
A chamada terminou.
Clara guardou o telefone no bolso da bata.
A porta da sala abriu-se.
A doutora Barea entrou com um casaco escuro por cima do uniforme.
—O que estás a fazer com esse corpo fora da câmara? —perguntou.
—A hora do registo está errada.
—Corrijo isso depois.
—O nome também parece estar errado.
Barea olhou para a etiqueta.
Durante um instante, a sua expressão mudou.
—Telefonaste ao Rivas?
Clara não respondeu.
—Fiz-te uma pergunta.
—O número estava no documento.
—Não voltes a fazer chamadas a partir desta sala.
—O homem está vivo.
Barea aproximou-se da maca.
—Não sabes isso.
—Acabei de falar com ele.
A doutora Barea olhou para a câmara frigorífica.
—Introduz o corpo e fecha a porta.
—Preciso de uma identificação oficial.
—Tê-la-ás de manhã.
—E se o nome for falso?
Barea tirou as luvas.
—Nesse caso, corrigimos o nome.
A doutora saiu da sala.
Clara esperou alguns segundos antes de introduzir a maca na câmara número quatro.
Durante a transferência, sentiu algo duro por baixo das costas do cadáver. Levantou ligeiramente o corpo e encontrou uma pequena chave de latão cosida ao forro interior do casaco.
A chave tinha uma placa metálica com uma inscrição:
M-17
Clara guardou-a no bolso.
Às seis e cinquenta e três, o telemóvel recebeu um alerta de notícias.
O juiz reformado Andrés Rivas é encontrado morto em casa.
Clara abriu o link.
A notícia dizia que Rivas fora encontrado no escritório, sentado junto à janela. A porta estava trancada por dentro. A filha chamara os serviços de emergência às seis e vinte.
A hora estimada da morte era seis e quarenta.
Clara voltou à câmara número quatro.
A porta estava aberta.
A maca continuava lá.
O corpo tinha desaparecido.
A etiqueta permanecia no chão.
Clara ligou a Barea, mas ninguém atendeu.
Depois telefonou à polícia.
A inspetora Irene Lobo chegou vinte minutos mais tarde. Era uma mulher alta, com cerca de quarenta anos, cabelo curto e um caderno preto na mão.
—Explique-me tudo desde o princípio —disse.
Clara contou-lhe tudo.
Lobo ouviu sem a interromper.
—Tem a certeza de que o corpo estava aqui?
—Fui eu que o introduzi.
—E agora desapareceu?
—Sim.
A inspetora entrou na câmara.
No chão, junto à porta, havia uma marca escura e estreita.
Não era sangue.
Parecia cera funerária.
—Quem tem acesso a esta zona? —perguntou Lobo.
—A doutora Barea, o pessoal das transferências e eu.
—As câmaras funcionam?
Clara apontou para o monitor.
A gravação da câmara número quatro estava danificada entre as duas e dez e as duas e vinte e seis.
Lobo olhou para o ecrã.
—Precisamente durante a transferência.
—A entrada no sistema foi criada antes de a carrinha chegar.
—Quem assinou o documento?
Clara mostrou-lhe a pasta.
Lobo leu a assinatura de Barea.
—E quem aparece como responsável pela transferência?
Clara observou a última linha.
Clara Montes.
—Eu não assinei isto.
Lobo levantou os olhos.
—O seu nome aparece aqui.
—Alguém o falsificou.
—Quem conhecia o seu número de identificação?
Antes que Clara pudesse responder, o telefone da inspetora vibrou.
Lobo ouviu durante vários segundos.
—Confirmaram a identidade de Rivas —disse depois de desligar. —O cadáver encontrado em casa é realmente o dele.
Clara sentiu o corredor a estreitar-se.
—Então o homem da câmara não era Rivas.
—É o que parece.
—Quem era?
—Vamos descobrir.
Lobo guardou a pasta num saco de provas.
Clara meteu a mão no bolso e tocou na chave com a placa M-17.
Não disse nada.
Às oito e doze, depois de a inspetora sair com os documentos, Clara recebeu uma notificação do sistema.
Nova entrada pendente de validação.
Abriu o registo.
O nome era o seu.
Clara Montes. Trinta e dois anos. Mulher. Morte pendente de autópsia.
A hora de entrada estava programada para as sete e quarenta e dois da manhã seguinte.
Por baixo aparecia uma observação:
Não transferir. Manter na sala fria.
Clara levantou os olhos.
Ao fundo do corredor, a porta da câmara número quatro começou a abrir-se.
Parte 2 — Resolução
A porta da câmara número quatro abriu-se lentamente.
Clara recuou.
Lá dentro não havia ninguém.
Apenas a maca vazia, um lençol dobrado e uma linha de cera seca no chão.
O telemóvel voltou a vibrar.
O registo da sua morte continuava aberto no ecrã.
Clara fez uma captura e enviou-a à inspetora Lobo.
Depois fechou o sistema e saiu da sala.
A doutora Barea estava junto à receção.
—O que ainda estás aqui a fazer? —perguntou.
—Desapareceu um cadáver.
—Já me comunicaram isso.
—E alguém registou a minha própria morte.
Barea olhou para ela sem surpresa.
—O sistema comete erros.
—O sistema não inventa assinaturas.
—Fala com a inspetora.
—A assinatura da transferência tinha o teu nome.
—Então isso é um assunto da polícia.
Clara meteu a mão no bolso e apertou a chave M-17.
—O que significa isto?
Barea olhou para a placa metálica.
Foi apenas por um instante, mas Clara viu o medo.
—Não sei.
—Encontrei-a cosida ao casaco do cadáver.
—Então entrega-a à polícia.
—É o que vou fazer.
Barea aproximou-se.
—Antes de fazeres acusações, certifica-te de que sabes onde estás metida.
Clara manteve o olhar.
—Foi isso mesmo que Andrés Rivas me disse.
A doutora Barea não respondeu.
Clara saiu do edifício.
A inspetora Lobo esperava por ela no parque de estacionamento.
—Recebi a imagem —disse. —O que é a chave?
—Encontrei-a no cadáver.
—Porque não ma entregou antes?
—Queria saber se Barea a reconhecia.
—Reconheceu?
—Sim.
Lobo abriu a porta do carro.
—Entre.
Na esquadra, Clara voltou a contar tudo. Lobo ouviu a gravação da chamada com Rivas e examinou a fotografia da chave.
—M-17 —disse. —Isso lembra-lhe alguma coisa?
—Não.
—Nos arquivos antigos da morgue, as salas eram identificadas com letras e números. M-17 pode ser um compartimento de armazenamento.
—O arquivo antigo está fechado há dez anos.
—Quem guarda as chaves?
Clara pensou na doutora Barea.
—Ela.
Lobo procurou o nome de Nicolás Orta na base de dados da polícia.
O resultado apareceu alguns segundos depois.
Nicolás Orta. Condutor de ambulâncias. Desaparecido em 18 de outubro de 2011.
Clara olhou para a fotografia.
Era o rosto do cadáver da câmara número quatro.
—Conhecia-o —disse Lobo.
—Não pessoalmente. Trabalhou no hospital antes de eu entrar.
—Porque teria ele a chave?
—Talvez não fosse dele.
Lobo imprimiu o relatório do desaparecimento.
Na última página aparecia uma anotação manuscrita:
O processo foi encerrado por falta de provas.
A assinatura pertencia a Andrés Rivas.
—Rivas investigou o desaparecimento —disse Clara.
—E nunca encontrou o corpo.
Lobo abriu outro ficheiro.
—Veja isto.
Era um relatório de transferência assinado pela doutora Barea. Segundo o documento, Nicolás Orta tinha morrido num acidente de viação três dias depois de desaparecer.
—Como pode existir um relatório de transferência se o corpo nunca apareceu? —perguntou Clara.
—Não pode.
Lobo contactou o departamento de registos.
Depois de várias consultas, descobriu que o documento fora introduzido no sistema doze anos depois da data indicada.
—Alguém o acrescentou recentemente —disse.
Clara observou a fotografia do cadáver.
—O Nicolás tentou contar alguma coisa.
—E alguém garantiu que ninguém o ouvisse.
Às seis da tarde, Lobo recebeu uma chamada da casa de Rivas.
A filha do juiz encontrara uma pasta escondida dentro de um cofre. Na capa aparecia uma referência:
M-17. Registo de falecimentos especiais.
Lobo olhou para Clara.
—A chave.
Foram juntas ao arquivo antigo da morgue. O edifício estava fechado, mas Lobo tinha uma ordem provisória de busca.
A secção M tinha pertencido ao antigo depósito de documentação. Os compartimentos estavam numerados e cobertos por uma camada de pó.
A chave abriu o número 17.
Lá dentro havia um livro preto, várias cópias de certidões de óbito e um envelope com fotografias.
O livro continha nomes, datas e quantias de dinheiro.
Alguns nomes estavam assinalados com uma cruz vermelha.
Outros apareciam acompanhados da palavra substituição.
Clara reconheceu vários apelidos de pessoas que tinham morrido anos antes.
—Estas pessoas não estão mortas —disse Lobo.
—Como sabe?
—Porque duas delas continuam a receber pensões no estrangeiro. Uma aparece num registo predial em Marrocos.
Clara virou as páginas.
Numa delas aparecia o nome de Andrés Rivas.
Ao lado estava uma data futura.
A data da sua morte.
Por baixo havia uma nota:
O corpo de teste será entregue durante o turno noturno.
Clara sentiu frio nas mãos.
—O Nicolás era o corpo de teste.
—Barea queria verificar se o sistema aceitava uma identidade falsa antes de registar a morte de Rivas.
—Mas por que razão matá-lo depois?
—Porque descobriu o livro.
Nesse momento, ouviu-se um ruído no corredor.
Lobo fechou o livro.
—Apague a luz.
As duas permaneceram imóveis.
Uma sombra passou por baixo da porta.
Depois ouviu-se o som de uma chave a rodar.
—Fecharam a entrada —sussurrou Clara.
—Barea?
—Ou Roca.
—Quem é Roca?
Clara apontou para uma das fotografias.
Nela aparecia um homem de fato escuro junto a uma agência funerária.
Esteban Roca. Diretor dos Serviços Funerários Orbe.
No verso da fotografia, Rivas escrevera uma anotação:
O Orta sabia quem recebia os corpos. Barea sabia quem os reclamava. Roca decidia quem desaparecia.
—A agência Orbe fez todas as transferências relacionadas com os nomes assinalados —disse Lobo.
A porta abriu-se.
A doutora Barea entrou acompanhada por Esteban Roca.
—Pousem o livro no chão —ordenou Roca.
Lobo sacou da arma.
—Está detido.
Roca fechou a porta atrás de si.
—Não tem autoridade para deter ninguém aqui.
—Tenho uma ordem de busca e provas suficientes para solicitar a sua detenção.
Barea olhou para Clara.
—Eu avisei-te de que não sabias onde estavas metida.
—Agora sei.
Roca avançou na direção delas.
—O livro não prova nada. São registos antigos sem valor legal.
—Provam que falsificaram certidões —disse Lobo.
—Provam apenas que alguém fez anotações.
Clara levantou uma das fotografias.
Nela aparecia Nicolás Orta junto a uma ambulância. No verso, Rivas escrevera:
O Orta sabia quem recebia os corpos. Barea sabia quem os reclamava. Roca decidia quem desaparecia.
Roca mudou de expressão.
—Dê-me isso.
Clara recuou.
Barea lançou-se contra ela.
Lobo tentou detê-la, mas Roca bateu no candeeiro e a sala ficou às escuras.
Clara correu para a porta.
Um braço agarrou-a pelas costas.
Reconheceu o cheiro do desinfetante impregnado na roupa de Barea.
—O teu nome já está no registo —sussurrou a doutora. —Amanhã ninguém vai duvidar de que o corpo é teu.
Clara bateu para trás com o cotovelo. Barea perdeu o equilíbrio.
No escuro, Clara encontrou a parede e carregou no interruptor de emergência.
As luzes vermelhas acenderam-se.
Lobo tinha Roca imobilizado no chão.
Barea correu para a saída.
Clara atirou-lhe o livro aos pés.
A doutora caiu.
Lobo chegou junto dela antes que pudesse levantar-se.
—Lucía Barea, fica detida por homicídio, falsificação de documentos e ocultação de provas.
Barea olhou para Clara.
—Não sabes quantas pessoas precisavam de desaparecer.
—Isso não te dava o direito de decidir quem morria.
A investigação revelou que Barea e Roca tinham criado uma rede de identidades falsas durante mais de uma década.
Alguns clientes queriam fugir a dívidas ou processos judiciais. Outros queriam receber seguros e heranças. Pagavam para serem declarados mortos e recebiam novos documentos noutro país.
Para fabricar essas mortes, utilizavam corpos sem identificação.
Nicolás Orta participara nas transferências. Quando decidiu denunciar a rede, Barea matou-o e guardou o corpo durante anos numa instalação privada.
Andrés Rivas descobriu o sistema ao rever o antigo processo de Nicolás. Preparou o livro M-17 e planeava entregá-lo à polícia.
Barea registou o corpo de Nicolás com o nome de Rivas para lhe enviar um aviso. Depois, Roca assassinou Rivas no escritório e os dois retiraram o cadáver da morgue para apagar a ligação.
A assinatura de Clara fora falsificada para a transformar na responsável pela entrada irregular.
O registo da sua própria morte estava programado para as sete e quarenta e dois porque era a hora a que o sistema validava automaticamente as transferências noturnas.
Uma semana depois, Clara voltou a trabalhar na morgue.
A câmara número quatro permanecia fechada.
Lá dentro havia apenas a maca e uma etiqueta sem nome.
Clara guardou-a numa caixa de provas.
Antes de sair, verificou o sistema.
O registo da sua morte tinha sido eliminado.
No seu lugar aparecia uma nova entrada:
Nicolás Orta. Identidade confirmada.
Clara desligou o monitor.
Durante alguns segundos, ouviu o zumbido das câmaras frigoríficas.
Depois, vindo da sala vazia, ouviu o som de uma porta metálica a fechar-se.
Desta vez, Clara não sentiu medo.
Apenas se lembrou da primeira frase do livro de Rivas:
Ninguém desaparece por completo enquanto alguém conservar o seu nome.
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